A chegada de novos meios é um elemento progressista para a sociedade. Aprofunda a democracia, a entrega da informação e faz com que as pessoas possam se informar melhor, decidir melhor, controlar melhor seus destinos.
Midia e Política

Os jornalistas só foram treinados para dar satisfação a uma pessoa: o chefe, o acionista, o dono do jornal, o dono da televisão. É para isso que jornalista foi treinado. Os bons jornalistas sabem que é preciso dar satisfação à sociedade. Mas um bom número de jornalistas acha que o importante é a sua carreira, o seu chefe, o seu jornal, os seus colegas e que é preciso apenas conviver com a sociedade, ela não é tão importante assim. Não entenderam a essência da profissão, que a lealdade principal do jornalista é com a sociedade e não com o dono do jornal, o chefe, a carreira, as fontes. Sempre que tiver uma contradição, a opção tem que ser pela sociedade. Assim são os grandes jornalistas, que sabem que o jornalismo é uma missão, é informar a sociedade e que, para isso, é necessário dar satisfação a ela antes de tudo.
O jornalista convive muito mal com essa crítica. E convive, isso é curioso. Não sei quem vive mais preocupado com o outro, se é a blogosfera, que vive preocupada com os jornais ou se são os jornais, que vivem preocupados com a blogosfera. Os caras da blogosfera acordam, vão ler os jornais e criticam, e os caras dos jornais, os grandes colunistas estão o tempo todo ali na blogosfera, pelo menos ali em oito, dez blogs porque sabem o seguinte: aquilo ali está fungando no cangote deles. E isso é ótimo, jornalista descer do pedestal, jornalista dever satisfação – mesmo que de uma forma envergada, truncada – à sociedade e não apenas aos acionistas dos jornais e seus prepostos.
Isso fará os jornalistas fazerem um trabalho melhor. E fará aumentar o peso do público no jornalismo. Por que qual é a grande contradição do jornalismo? O jornalismo é um espaço público. Quando não é, ele vai até certo ponto e para.
Jornalismo, para atingir um grande público, precisa ser um espaço público, onde o público vai achar informação qualificada, independente e honesta, sem grandes manipulações.
O jornalismo tem que ser independente da opinião dos acionistas. Tem que ser dependente de uma coisa: dos fatos. Jornal existe pra correr atrás de notícia e fazer matéria sobre o que aconteceu, não sobre o que eu queria que acontecesse ou o que eu imagino que possa acontecer e pode ferir esse ou aquele interesse.
O jornalismo é um espaço público e é mediado por interesses privados das mais diversas naturezas, O bom jornalismo é onde os interesses privados pesam pouco e a compreensão de que aquilo é um espaço público pesa muito.
Costumo dizer que a blogosfera é o grilo falante da imprensa hoje em dia no Brasil. Pinóquio contou uma mentira: “Pinóquio, o seu nariz está crescendo”. Pinóquio manipulou: “Opa, está manipulando, Pinóquio”; Pinóquio fez com que os interesses ideológicos, econômicos, políticos dos acionistas prevalecessem sobre o espaço público e o cara diz: “Qual é Pinóquio, está achando que nos engana?”. Podemos chamar a era da rede de era do Pinóquio. Há um Pinóquio que diz à imprensa: “não é bem assim!”.
Na blogosfera, estamos na superfície, temos que aprofundar. E para aprofundar é necessário recursos, dinheiro, coisas que permitam bancar a sobrevivência de alguns profissionais durante um determinado tempo para que sejam capazes de fazer uma apuração que não seja algo que já está ali, ir além do que existe. Esse é o grande desafio da blogosfera.
O bom jornalismo deve ter duas coisas. Uma eu já falei, que é a dependência dos fatos. A segunda é a busca por isenção. Eu vejo muito na blogosfera: “ah esse negócio de isenção não existe, ninguém é isento”. Isento o tempo todo ninguém é. Mas buscar a isenção é uma atitude, é um comportamento. Mesmo que não se consiga ser isento, mesmo que, de alguma forma, se contrabandeie preconceitos, pois nós somos seres humanos, a busca da isenção permite o entendimento de que o jornalismo é uma atividade pública, não é uma atividade privada.
Basta termos consciência de que a função do jornalista não é pegar o país pelo nariz e puxar de lá para cá, a função do jornalista não é comandar o país. A função de dono de jornal não é dizer para onde o Brasil tem de ir. Quem diz para onde o país tem de ir é o eleitor, que elege, que decide e que cobra depois. Se não foi bem, tira do governo nas próximas eleições. Essa não e a função do jornalismo. A função do jornalismo é ir aos fatos, dar a notícia, buscar isenção, fazer do jornalismo um espaço público, qualificar o debate público com pluralismo, são coisas simples, mas que o jornalismo do Brasil, na era do aquário, tem muita dificuldade de fazer.
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